A crise no mercado do café está sendo agravada por uma combinação de fatores climáticos, logísticos e econômicos, criando um cenário desafiador tanto para produtores quanto para consumidores. Em 2024, os efeitos da seca severa e das altas temperaturas foram sentidos em praticamente todas as regiões produtoras do Brasil, país responsável por aproximadamente um terço do café consumido no mundo. Com safras menores e preços em disparada, a cadeia produtiva enfrenta incertezas que podem perdurar por anos.
Impactos climáticos devastadores
As regiões cafeeiras de Minas Gerais e São Paulo, que juntas representam grande parte da produção nacional, sofreram com um clima excepcionalmente adverso no início do ano. Os períodos prolongados de seca, combinados a temperaturas acima da média, comprometeram o ciclo de desenvolvimento das plantas. Segundo Cesar Castro Alves, consultor de café no Itaú BBA, o estresse hídrico forçou as plantas a priorizarem a sobrevivência, interrompendo o desenvolvimento dos frutos.
Embora tenha havido chuvas durante a florada — um momento crucial para a formação do grão —, as árvores já estavam debilitadas. Essa condição levou muitos produtores a adotar medidas drásticas, como o “esqueletamento” das lavouras, uma técnica que consiste em podas severas para estimular a recuperação da planta em ciclos futuros.
Produção em queda e desafios na recuperação
A Companhia Nacional de Abastecimento (Conab) estima que a safra de 2024 alcance 54,8 milhões de sacas, representando uma queda de 0,5% em relação ao ano anterior. Embora o número pareça pequeno, ele sinaliza a continuidade de uma tendência negativa para um setor que opera sob a lógica da bienalidade. Normalmente, anos de alta produção são seguidos por períodos de menor rendimento, mas, nos últimos quatro anos, esse ciclo foi interrompido, com safras consecutivamente menores devido às adversidades climáticas.
Especialistas apontam que a recuperação completa das lavouras pode levar anos. Para 2025, as expectativas ainda são moderadas, dependendo de chuvas consistentes nos meses de janeiro, fevereiro e março. Caso isso não ocorra, a pressão sobre os preços continuará, afetando tanto o mercado interno quanto as exportações.
Mercado interno: preços em alta
Os consumidores brasileiros já sentem os efeitos dessa crise no bolso. Um pacote de 1 kg de café, que custava R$ 35,09 em janeiro de 2024, atingiu o preço médio de R$ 48,57 em novembro, de acordo com a Abic. Esse aumento de quase 33% em menos de um ano é reflexo direto das dificuldades enfrentadas pelos produtores e da crescente demanda.
Apesar disso, o consumo interno mostra-se resiliente. Dados da Abic indicam que, entre janeiro e outubro de 2024, o consumo de café no Brasil cresceu 0,78%. O perfil do consumidor brasileiro, que tradicionalmente mantém pequenos estoques em casa, ajuda a mitigar os impactos das variações de preço no curto prazo. Além disso, a popularidade de novas receitas e métodos de preparo contribui para manter o interesse pela bebida.
Exportações crescentes e novos mercados
No cenário internacional, o Brasil tem se beneficiado de oportunidades em mercados emergentes, como a Ásia. Países como a China registram um aumento anual de 17% nas compras de café brasileiro, conforme aponta Cesar Alves, do Itaú BBA. Enquanto os países desenvolvidos, grandes consumidores tradicionais, são menos sensíveis aos aumentos de preço, nações em desenvolvimento estão se tornando novos polos de demanda.
Esse movimento, no entanto, pressiona ainda mais o mercado interno, reduzindo a oferta disponível e contribuindo para o aumento dos preços. Além disso, a logística internacional enfrenta desafios adicionais. Conflitos no Oriente Médio, que complicaram rotas importantes, como o Canal de Suez, elevaram o custo do transporte e aumentaram os prazos de entrega.
Impacto global: robusta e arábica em alta
O impacto da crise não se restringe ao Brasil. O Vietnã, maior produtor mundial de café robusta, também enfrenta problemas climáticos. Esse cenário tem elevado o preço tanto do robusta quanto do arábica. Pela primeira vez em sete anos, o robusta chegou a superar o valor do arábica no mercado internacional, um marco histórico que evidencia a gravidade da situação.
Embora o Brasil seja líder na produção de arábica, considerado o grão de maior qualidade, sua produção robusta também tem ganhado espaço. Tradicionalmente destinado ao mercado interno, o robusta brasileiro agora encontra demanda crescente no exterior, impulsionado pelas dificuldades do Vietnã.
Projeções para o futuro
Os especialistas preveem que os preços do café continuarão elevados pelo menos até 2026. "Não há perspectiva de que a produção volte aos níveis ideais no curto prazo", afirma Alves. Ele destaca que a recuperação das lavouras depende não apenas de condições climáticas favoráveis, mas também de investimentos significativos em manejo agrícola e tecnologia.
A safra de 2026 pode trazer algum alívio, desde que 2025 apresente chuvas regulares e temperaturas controladas. Contudo, fatores como a expansão do consumo global e a instabilidade logística devem manter o mercado aquecido.
Um setor em alerta
A crise do café é um lembrete claro da vulnerabilidade do setor agrícola às mudanças climáticas e aos desafios globais. A necessidade de estratégias mais robustas para lidar com condições climáticas extremas nunca foi tão evidente. Enquanto isso, consumidores, produtores e governos precisam se preparar para um mercado em constante transformação, onde os preços elevados podem se tornar a nova realidade.