Com mais de 1,1 milhão de habitantes e longa tradição em saúde pública, Campinas tem no Padi Brasil uma ferramenta para alcançar idosos que não saem de casa
Campinas tem 1.139.047 habitantes, segundo o Censo 2022, e é a maior cidade do interior paulista. A cidade tem longa tradição em saúde pública e uma rede ampla de centros de saúde espalhados pelo território. Mas mesmo uma rede robusta enfrenta um desafio crescente: o número de idosos que não conseguem mais chegar até ela.
É para esse público que o Ministério da Saúde criou o Programa de Atenção Domiciliar à Pessoa Idosa, o Padi Brasil. Lançado em junho de 2026, o programa financia equipes multiprofissionais (eMulti) para atender em casa pessoas com 60 anos ou mais restritas ao domicílio, com repasse federal adicional de R$ 5 mil a R$ 10 mil mensais por equipe, conforme a modalidade.
Em uma metrópole, o idoso acamado pode estar a poucas quadras de um centro de saúde e, ainda assim, completamente fora de alcance. Basta morar em um prédio sem elevador, em uma rua de acesso difícil ou depender de um familiar que trabalha o dia inteiro do outro lado da cidade. O resultado é o isolamento: consultas que não acontecem, exames que não são feitos, receitas que não são renovadas.
O Padi Brasil inverte esse caminho. A equipe vai até o idoso e faz uma avaliação que cobre não só as doenças, mas também a funcionalidade, a cognição, o humor, a nutrição, a rede de apoio e o ambiente da casa. O resultado é um plano de cuidados individual, construído em conjunto com a equipe de Saúde da Família que já acompanha aquele território. Familiares e cuidadores recebem orientação para o dia a dia.
Por ser um programa da Atenção Primária, o Padi não substitui outros serviços. Ele se integra a eles. Quando o idoso precisa de um procedimento mais complexo, a equipe articula o encaminhamento com a rede especializada. Quando a necessidade é social, aciona a assistência social. O idoso deixa de ser um paciente que só aparece na emergência e passa a ser acompanhado de forma contínua.
Campinas é referência hospitalar e especializada para dezenas de municípios do entorno. Isso significa que seus hospitais e prontos-socorros recebem pacientes de toda a região. Cada internação evitada por um bom acompanhamento domiciliar, seja dentro da cidade ou nos municípios vizinhos, alivia uma rede que atende milhões de pessoas.
Há ainda o efeito demonstrativo. Quando uma cidade com a tradição de Campinas em saúde pública organiza o cuidado domiciliar ao idoso, ela produz conhecimento, protocolos e formação profissional que servem de referência para toda a macrorregião.
Sem o cuidado em casa, o caminho do idoso acamado é previsível: complicações que se acumulam em silêncio até se tornarem emergências. Uma pneumonia que poderia ter sido identificada no início, uma queda que poderia ter sido prevenida com uma adaptação simples no banheiro, uma medicação que poderia ter sido ajustada a tempo. Cada um desses casos vira internação, e cada internação de um idoso frágil traz o risco de perda definitiva de autonomia.
O Brasil tem mais de 32,1 milhões de pessoas com 60 anos ou mais, segundo o Censo 2022, e 80% delas dependem exclusivamente do SUS. No estado de São Paulo, esse grupo cresceu 60,3% em apenas doze anos. O cuidado domiciliar estruturado, com financiamento federal e integrado à rede pública, é a resposta à altura dessa transformação demográfica.
Para Campinas, o Padi Brasil é a oportunidade de levar a força de sua rede de Atenção Primária até a porta de quem mais precisa.
Sobre os autores:
Humberto Tobé é Pós-Graduado em Gestão da Saúde Pública, trabalha na interlocução com prefeitos, vereadores, gestores municipais e representantes da área da saúde dos municípios paulistas.
Fatima Crhistine é mestranda em Políticas Públicas pela Universidade Católica de Brasília (UCB), graduada em Economia e Pedagogia, com pós-graduação em Educação Parental e Socioemocional. Servidora Pública Federal cedida da Universidade Federal do ABC para a Secretaria Executiva do Ministério da Saúde.
Jornal Metropolitano SP