Pesquisadoras da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) estão desenvolvendo projetos que ampliam o uso medicinal da maconha e prometem oferecer mais conforto para pacientes com diferentes condições de saúde (assista à reportagem acima).
Entre os produtos em criação, estão:
- Uma película hidrogel com canabinoides, que serve como curativo ajudando na cicatrização de ferimentos e evitando infecções em ferimentos;
- Um adesivo dérmico que substitui o uso oral e pode ser colocado sobre a pele, na região das costas;
- Uma emulsão orodispersível, que proporciona uma melhora na textura, no cheiro e no sabor do óleo de cannabis.
O objetivo é explorar novas formas de consumo do remédio, que atualmente é realizado por meio do extrato da flor da planta. Segundo especialistas, embora seja o mais comum, o óleo pode não agradar todos os pacientes. A professora de tecnologia farmacêutica da Unicamp Priscila Mazzola falou sobre o assunto.
“A gente pensa no desenvolvimento de produtos sempre pensando na maior adesão do paciente à terapia medicamentosa. Claro que os óleos que existem hoje, que estão disponíveis para aquisição, são seguros e eficazes. O que a gente busca são alternativas terapêuticas para resolver algumas questões”.
“A maior fração é de medicamentos para uso oral. Mas, em outras situações, outras vias de administração, então, usar o adesivo na superfície da pele, usar uso retal, via vaginal, colírio. A depender da doença, da condição do paciente, é importante ter um arsenal terapêutico diferenciado”, completa.
A EPTV, afiliada da TV Globo, conversou com as jovens pesquisadoras da instituição para entender mais detalhes sobre cada iniciativa. Confira mais detalhes abaixo:
Curativo de maconha
/i.s3.glbimg.com/v1/AUTH_59edd422c0c84a879bd37670ae4f538a/internal_photos/bs/2024/4/U/fAAHpKSLSvobcr2BIA0Q/screenshot-10.png)
Pesquisadora da Unicamp desenvolve 'curativo' com cannabis — Foto: Reprodução/EPTV
As propriedades anti-inflamatórias da maconha são a aposta da pesquisadora Nicole Ferrari de Carvalho. Ela criou uma película em hidrogel, uma espécie de curativo, que terá canabinoides e vai ajudar a tratar ferimentos. “O hidrogel tem a mesma textura de uma lente de contato. Em contato com a água ele vai hidratar e você pode colocar na sua pele. Ele tem um intuito tanto para cicatrização, quanto anti-inflamatório”.
“[Se] obtive uma queimadura, posso colocar [o hidrogel] como forma de aliviar a dor, não causar inflamação. Obtive um corte, posso colocar em cima também para aliviar a dor, não obter bactérias. Tudo passando pela pele e chegando nas camadas em que ele vai fazer efeito”, detalha.
Cannabis medicinal em adesivo
Já a Luiza Aparecida Luna Silveiro é a criadora do adesivo com canabidiol. Ela conta que sempre se interessou por temas ligados a doenças degenerativas, que costumam estar associadas a tratamentos longos e que nem sempre são eficazes. Em muito desses casos, a cannabis é a melhor alternativa. Porém, pode não ser tão boa para todo mundo.
“Um problema que a gente tem é que só existe no Brasil a medicação via oral. É um óleo em gotas ou um spray que a gente coloca na boca e engole. Isso leva a uma biodisponibilidade muito baixa. Isso significa que a quantidade no organismo para ter ação é muito baixa. As pessoas acabando tendo que que tomar uma dose muito alta várias vezes ao dia”.
“Estou desenvolvimento um adesivo transdermico com a maconha. O adesivo é um medicamento que você coloca sob a pele e ele tem absorção para o sangue. Você pode deixar o adesivo sobre a pele por muitos dias, por exemplo. Não precisa ficar tomando aquele medicamento sempre”, completa.
Óleo de cannabis com melhor sabor e textura
/i.s3.glbimg.com/v1/AUTH_59edd422c0c84a879bd37670ae4f538a/internal_photos/bs/2024/u/r/mAsbuDQ4mnATp4ucy7aQ/screenshot-11.png)
Juliana desenvolveu emulsão que promete sabor e texturas melhores para o óleo da cannabis — Foto: Reprodução/EPTV
Pensando nos pacientes que podem se incomodar com o sabor e a textura do tradicional óleo de cannabis, Juliana Feitosa Brasil também teve uma ideia. Ela criou um remédio para ser usado de forma oral, mas com um diferencial importante.
“Estou desenvolvimento uma emulsão via oral que consiste na mistura entre água e óleo. O óleo iria ficar na fase interna e a fase externa seria água envolvendo esse óleo. A ideia da emulsão é mascarar o odor e melhorar o paladar, o sabor”.
Avanço científico
Os produtos estão na fase inicial. Muitos testes ainda precisam ser feitos para que a população possa ter acesso a esses tratamentos de forma mais segura. “A pesquisa com maconha no Brasil precisa ser estimulada, não só no nosso caso, que é o de desenvolvimento de medicamentos, mas em todas as áreas. O Brasil tem um potencial de pesquisa imensa, pesquisadores de excelência”, diz Priscila.