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Segunda-feira, 29 de dezembro de 2025
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Discurso de sustentabilidade contrasta com aumento de plásticos

Índice de Fabricantes de Resíduos Plásticos constatou que mundo gerou 139 milhões de toneladas métricas de resíduos plásticos descartáveis em 2021

Discurso de sustentabilidade contrasta com aumento de plásticos
Luciano Belford/Agência Nossa
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O mundo está produzindo uma quantidade recorde de resíduos plásticos descartáveis, principalmente feitos de polímeros criados a partir de combustíveis fósseis, apesar dos esforços globais para reduzir a poluição plástica e as emissões de carbono, segundo um novo relatório divulgado nesta segunda-feira.

O segundo Índice de Fabricantes de Resíduos Plásticos, compilado pela filantrópica Minderoo Foundation, constatou que o mundo gerou 139 milhões de toneladas métricas de resíduos plásticos de uso único em 2021, 6 milhões de toneladas a mais do que em 2019, quando o primeiro índice foi lançado.

O relatório descobriu que o desperdício de plástico adicional criado nesses dois anos equivale a quase um quilograma (2,2 libras) a mais para cada pessoa no planeta e foi impulsionado pela demanda por embalagens flexíveis, como filmes e sachês.

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Nos últimos anos, governos de todo o mundo anunciaram políticas para reduzir o volume de plástico descartável, proibindo produtos como canudos e talheres descartáveis, recipientes para alimentos, cotonetes, sacolas e balões.

Discurso de sustentabilidade contrasta com aumento de uso de plásticos -  Marco Zero Conteúdo


Em julho, a Califórnia se tornou o primeiro estado dos EUA a anunciar suas próprias metas – incluindo uma queda de 25% na venda de embalagens plásticas até 2032.

Em dezembro, o Reino Unido ampliou sua lista de itens proibidos para incluir bandejas descartáveis, palitos de balão e alguns tipos de copos de poliestireno e recipientes para alimentos. As proibições também estão em vigor na União Europeia, Austrália e Índia, entre outros lugares.

Mas o relatório descobriu que a reciclagem não está aumentando rápido o suficiente para lidar com a quantidade de plástico produzida, o que significa que os produtos usados ​​têm mais probabilidade de serem despejados em aterros, praias, rios e oceanos do que irem para reciclagem.

O índice nomeou apenas duas empresas da indústria petroquímica que estão reciclando e produzindo polímeros reciclados em escala: o conglomerado taiwanês Far Eastern New Century e a tailandesa Indorama Ventures, maior produtora mundial de PET reciclado para garrafas de bebidas.

A Indorama Ventures também está em quarto lugar em uma lista dos 20 maiores produtores mundiais de polímeros virgens usados ​​em plásticos descartáveis.

A lista é liderada pela petroleira americana Exxon Mobil, a chinesa Sinopec e outra peso-pesado dos EUA, a Dow, nessa ordem, conforme o relatório.

E ao fabricar polímeros destinados ao plástico de uso único, essas 20 empresas geraram cerca de 450 milhões de toneladas métricas de emissões de gases de efeito estufa – aproximadamente a mesma quantidade de emissões totais do Reino Unido, de acordo com Carbon Trust e Wood Mackenzie, que analisaram os dados.

Em junho passado, o Escritório de Estatísticas Nacionais do Reino Unido disse que as emissões de gases de efeito estufa do Reino Unido caíram 13%, para pouco mais de 478 milhões de toneladas de dióxido de carbono equivalente no ano até 2020.

“Isso demonstra, sem sombra de dúvida, que o problema da poluição plástica está ficando muito maior e está sendo impulsionado pelos produtores de polímeros, que são, é claro, impulsionados pelo setor de petróleo e gás”, disse Andrew Forrest, fundador da Minderoo e diretor-executivo da gigante de minério de ferro Fortescue Metals.

praia cheia de lixo
Corvo sobrevoa praia cheia de lixo em Mumbai, Índia / Reuters

Ele está propondo um “prêmio de polímero” para cada quilo de polímero plástico feito de combustíveis fósseis para dar às pessoas, empresas e governos um incentivo financeiro para reciclar mais.

“No mundo avançado, esse pagamento de polímero levará à cobrança mecanizada automática. No mundo em desenvolvimento, isso levará pessoas que de outra forma não teriam nenhum trabalho, a trabalhar para garantir que não haja lixo plástico indo para o oceano, não haja lixo plástico nas ruas, não haja lixo plástico envenenando a vida selvagem”, disse.

Em 2022, a Assembleia das Nações Unidas para o Meio Ambiente, o órgão de tomada de decisão de mais alto nível sobre o meio ambiente, concordou em criar o primeiro tratado global de poluição plástica do mundo.

Um comitê intergovernamental está trabalhando até 2024 para redigir um acordo juridicamente vinculativo que aborde todo o ciclo de vida do plástico, desde sua produção e design até seu descarte.

Sacos plásticos e outros lixos sufocam tartarugas em Niterói (RJ). Nas imagens, 3 delas mortas. Fotos: Danielle Chevrand

“Tenho achado cada vez mais plástico no mar, só piorou nos últimos meses. Tem menos sacolas plásticas mas em compensação muito mais quentinhas de isopor, garrafas pet. Copo de Guaravita, aquele guaraná barato que vende aqui no Rio, é febre”, conta a remadora Danielle Chevrand, fundadora de um clube de canoa que usufrui das belas enseadas da Baía de Guanabara, em Niterói (RJ).

“Quase toda semana encontramos uma tartaruga morta ou precisando de ajuda para se livrar de saco plástico ou outros lixos”, afirma a atleta, que também é jornalista.

Lixo X Tartarugas Marinhas

O diretor-superintendente da Abiplast, Paulo Teixeira, argumenta que, do total do plástico produzido, cerca de 70% têm ciclo de vida longo ou médio, como canos para construção civil, peças para carros e máquinas, próteses ortopédicas, e, dos 30% restantes, cerca de 2,5% são os chamados descartáveis, como plásticos de uso único. 

De acordo com o Panorama dos Resíduos Sólidos (RSU) no Brasil 2020, das 79 milhões de toneladas de resíduos sólidos urbanos gerados no país, 72,7 milhões foram coletadas, mas não há atividades de coleta seletiva em diversos municípios brasileiros.

Lógica importada não reflete realidade brasileira, diz Abiplast

“O nosso maior desafio é adaptar a lógica dos países centrais à realidade do Brasil. Temos uma sociedade com grande grau de desigualdade, com questões socioeconômicas complexas e graves, como a fome, a renda, o emprego. Não existe gestão de resíduos sólidos universalizada no país, há vários municípios sem coleta de lixo. Nem estamos falando em coleta seletiva! Muitas cidades não contam com água encanada ou tratamento de esgoto”, observa o diretor-superintendente  da Abiplast.

Campanha da ONU quer reduzir plásticos em rios e mares do Brasil

O professor do Instituto Oceanográfico da USP e coordenador da Cátedra Unesco de Sustentabilidade do Oceano Alexandre Turra explica que a simples prática individual da reciclagem é insuficiente para resolver o problema do tratamento do resíduo sólido. Para que esta gestão seja eficaz, é necessário que administrações municipal, estadual e federal viabilizem estas ações.

“O plástico é um produto interessante para várias aplicações. Em termos de termodinâmica, é necessário se valorizar este produto, mas não tem o menor sentido ir pra o aterro. A solução é atribuir ao plástico o valor que ele realmente tem, incorporar os custos para tirar da natureza e minimizar os custos ambientais“, destaca Teixeira.

 Ifood firma compromisso para reduzir plásticos, mas outros aplicativos resistem

Em agosto deste ano, o  iFood se comprometeu a reduzir a oferta de itens plásticos descartáveis em seus serviços de entrega, assinando o compromisso para a campanha “DeLivreDePlástico”, da ONG Oceana e da Mares Limpos, do Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (PNUMA). Lançada em dezembro de 2020, a iniciativa reivindicava aos aplicativos de entrega de comida a redução da quantidade de plástico descartável que enviam aos consumidores.

De acordo com o documento assinado pelo iFood, as metas de redução estão distribuídas em três fases e a meta é que, até dezembro de 2021, 100% dos restaurantes parceiros terão a opção de não enviar descartáveis. Até 2025, a empresa garantirá que 80% dos pedidos não incluam o envio de  guardanapos, talheres, pratos, copos e canudos plásticos. O compromisso inclui, ainda, o desenvolvimento de planos de trabalho com metas de redução para sacolas e embalagens descartáveis até março de 2022 e de inserção de embalagens reutilizáveis até março de 2023.

“Esse foi um primeiro passo, muito importante, porque o Ifood é o maior player da indústria de delivery e tem um papel muito importante nesta transição. Mas o compromisso tem três fases e ainda vamos cobrar o cumprimento das metas, como a redução de embalagens, sacolas e aumento de embalagem retornáveis”, destacou a gerente de Campanhas da Oceana, a engenheira ambiental Lara Iwanicki.

iFood reduz cerca de 130 toneladas de plástico geradas pelo delivery  mensalmente - Agência Envolverde 21/03/2023

A ONG, no entanto, ainda tenta firmar o mesmo acordo com outros aplicativos. Entre as ações de sustentabilidade, o aplicativo Rappi divulga a integração de um projeto em parceria com a marca de cerveja Corona para a criação do selo Less Plastic, que incentiva restaurantes a reduzirem a quantidade de plástico utilizado. Outra iniciativa da parceria foi a doação, com início em julho, de embalagens feitas a partir de fécula de mandioca, material com tempo de decomposição muito inferior ao plástico, para lojas e restaurantes de São Paulo e do Rio de Janeiro.

Uber Eats incentiva redução no consumo de descartáveis

Já a plataforma Uber Eats atua na redução de consumo de descartáveis. Ao selecionar o pedido no aplicativo, o cliente pode escolher se deseja os utensílios e os restaurantes participantes da ação possuem um selo de “restaurante com uso de plástico reduzido”, dentro do App.

“A campanha ‘DeLivreDePlástico’ nasceu durante a pandemia e foi uma resposta ao aumento de consumo e de pedidos de delivery em casa. O consumidor passou a consumir mais em casa, tanto por aplicativo como .por home office e isso aumentou muito a emissão de sacolas, isopor e até de mesmo de embalagens plásticas, como  plástico filme, em volta destas do isopor, para evitar o vazamento dos produtos. Os consumidores estavam recebendo pilhas de plástico”, contou Iwanicki.

Uber Eats propõe pacto para reduzir uso de plástico - Agência Envolverde  07/03/2019

A gerente ambiental afirma que a própria população está cobrando medidas sustentáveis das empresas e que, em um futuro próximo, quem não se adequar vai perder clientes. Em março, uma pesquisa realizada pelo Inteligência em Pesquisa e Consultoria (Ipec), atendendo a uma solicitação da Oceana e do Pnuma, mostrou que 7 em cada 10 consumidores querem receber seus pedidos sem plástico descartável e que 15% já deixaram de solicitar o serviço por se sentirem incomodados pela quantidade de polímeros enviados junto com a refeição.

Especialista propõe mudanças na relação de consumo da sociedade

O movimento global Break Free From Plastic (BFFP) vai mais fundo na questão da contaminação do meio ambiente por polímeros e preconiza um futuro livre do plástico. Com mais de 11.000 organizações e apoiadores individuais no mundo inteiro, a instituição exige reduções maciças em plásticos de uso único e pressiona por soluções duradouras para a crise de poluição. A ONG acredita que este trabalho deva inserir toda cadeia produtiva, da extração ao descarte, “com foco na prevenção ao invés da cura“ e no fornecimento de soluções eficazes.

Integrante do BFFP, Elisabeth Grimberg é coordenadora de Resíduos Sólidos do Instituto Pólis, representante da América Latina de GAIA – Aliança Global Alternativas à Incineração, além de coprotetora da Aliança Resíduo Zero Brasil. A especialista propõe uma verdadeira revolução na sociedade, com legislação mais rígida, redesign dos produtos e mudança de hábitos da sociedade.

Consumo consciente: o que é e por que é importante?

“O recomendável é que os plásticos duráveis, usados em modem de computador, TV, na fabricação de bens duráveis em geral, sejam reaproveitados quando o equipamento apresentasse alguma falha. O ideal era que estas estruturas fossem passíveis de reaproveitamento, que, se possível apenas se substituísse o motor de um ventilador, por exemplo, assim como outros equipamentos. Estas medidas representariam uma grande eficiência energética e gerariam muito menos impacto ambiental“, recomenda a especialista.

Greenwashing

Elisabeth afirma que temas como responsabilidade ambiental e sustentabilidade no campo de produção de plásticos dão uma sensação de greenwashing (ou banho verde, em português), termo utilizado para definir empresas que mascaram o dano provocado ao meio ambiente com medidas de marketing.

A ambientalista também sustenta que são necessárias mudanças no sistema de distribuição de alimentos, lembrando que os supermercados e hortifrútis estão entre alguns dos maiores emissores de plásticos não recicláveis no planeta. Para Grimberg, o ideal seria um sistema com circuitos curtos de produção e consumo, por meio do contato direto com o produtor agrícola, banindo, desta forma, o saquinho plástico de supermercados, proveniente não só das famosas sacolas, como também das embalagens.

“Um sistema com governança, sustentabilidade e responsabilidade maior teria que oferecer linhas de créditos de financiamento com baixos juros para, por exemplo, incentivar a venda de produtos a granel. Nas feiras livres, estimular os comerciantes a conversar com os consumidores para botar o plástico no carrinho sem plástico. Estimular vendas descentralizadas a granel, é toda uma mudança de lógica“, afirmou.

A integrante do BFFP argumenta que esta mudança de hábito de consumo e produção não é tão inviável, tendo em vista que em um passado bem recente, refrigerantes, bebidas alcoólicas, além dos tradicionais copos de requeijão, eram embalados por vidros, recipientes bem menos poluentes e reutilizáveis.

“Por que o plástico não desapareceu? Por causa do custo, basicamente. Tem que chamar estas grandes corporações e questionar: vocês querem ser sustentáveis? Então voltem para o vidro, que é 30 ou 35 vezes mais reutilizável para a mesma finalidade. Assim, você vai gerar essa massa absurda de plástico, mesmo que reciclável“, destaca.

A especialista também adverte que mesmo a reciclagem de plástico provoca impacto ambiental e não deve ser encarada como única solução para poluir menos o ecossistema.

Como detectar e combater a prática de Greenwashing

FONTE/CRÉDITOS: Agência Nossa | Andréia machado

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