Inteligência artificial, digitalização e eletrificação já estão disponíveis para a indústria brasileira. O desafio agora é incorporá-las às operações. Escassez de profissionais qualificados, limitações da infraestrutura energética e dificuldade para viabilizar investimentos seguem como barreiras. Esse foi o ponto de partida do painel “A indústria eletroeletrônica diante de uma nova agenda de competitividade”, promovido na última semana pela FIEE – Feira Internacional da Indústria Elétrica, Eletrônica, Energia, Automação e Conectividade.
O debate ocorre em um momento de contrastes para o setor. Segundo a Abinee, o faturamento da indústria eletroeletrônica chegou a R$ 270,8 bilhões em 2025, enquanto a produção industrial recuou 2,1% em relação ao ano anterior. Ou seja, a receita cresce, mas a produção física não acompanha. O setor encerrou 2025 com 288 mil trabalhadores e investimentos de R$ 4,7 bilhões, e projeta faturar R$ 289 bilhões em 2026.
Com mediação de Silla Motta, estrategista com foco em segurança energética, especialista no setor elétrico e curadora da 2ª edição do Congresso FIEE, o painel reuniu Patrícia Cavalcanti, vice-presidente de Digital Energy & Power Products para a América do Sul na Schneider Electric; Marcelo Machado, diretor da área de Geração, Transmissão e Distribuição (GTD) da Abinee; Fernando Oliveira Silveira, diretor comercial da GreenYellow; e Wilson Morais, diretor de produtos e soluções de eletromobilidade e infraestrutura da ABB Eletrificação.
Alta tecnologia, baixa qualificação profissional
Para Silla, a disponibilidade de novas tecnologias não é suficiente para garantir ganhos de produtividade na indústria. “O grande desafio da indústria brasileira está em transformar o avanço tecnológico em ganhos concretos de produtividade e competitividade. Isso exige uma visão integrada de energia, infraestrutura, digitalização, inteligência artificial e qualificação profissional. Mais do que incorporar novas tecnologias, precisamos criar condições para que a inovação se traduza em eficiência, segurança energética, atração de investimentos e desenvolvimento econômico”, afirmou Silla.
A inteligência artificial já permite antecipar falhas, planejar manutenções e reduzir perdas nos processos industriais, e sua adoção acelerou. De acordo com a Pintec Semestral do IBGE, a proporção de empresas industriais que usam algum tipo de IA passou de 16,9% em 2022 para 41,9% em 2024. O levantamento considera empresas das indústrias extrativas e de transformação com 100 ou mais pessoas ocupadas.
“A tecnologia existe, e hoje ela já não é mais uma barreira para a gente evoluir dentro da indústria. Mas ela por si só não vai fazer a transformação”, explicou Patrícia Cavalcanti. Para ela, o desafio está em preparar as empresas e seus profissionais para aproveitar essas possibilidades.
Os números confirmam o alerta. Na Sondagem Industrial da CNI, a falta de trabalhador qualificado ficou em torno de 5% das menções entre 2015 e 2020 e chegou a 23,3% no segundo trimestre de 2025, o maior percentual da série. Entre as pequenas empresas, o problema atinge 28,4% e ocupa a segunda posição no ranking, atrás apenas da carga tributária. O Mapa do Trabalho Industrial 2025-2027, do Observatório Nacional da Indústria (ONI/CNI), estima que o Brasil precisará qualificar 14 milhões de trabalhadores em áreas estratégicas para a indústria entre 2025 e 2027, sendo 2,3 milhões em formação inicial e 11,8 milhões em treinamento e desenvolvimento.
O investimento na formação de profissionais também foi destacado por Marcelo Machado, que apontou o desenvolvimento de tecnologias próprias e os ganhos de produtividade como condições para ampliar a competitividade do setor. “Quanto mais complexo o ambiente, maiores são as oportunidades”, afirmou.
Sobre a FIEE
A FIEE – Feira Internacional da Indústria Elétrica, Eletrônica, Energia, Automação e Conectividade acontecerá de 14 a 17 de setembro de 2027, no São Paulo Expo. A feira reunirá empresas, especialistas e profissionais dos setores elétrico e eletrônico para apresentar tecnologias e soluções voltadas à produtividade, eficiência energética e modernização industrial. O evento também sediará a 2ª edição do Congresso FIEE, com uma programação dedicada às tendências e aos desafios da indústria.
Jornal Metropolitano SP