A energia deixou de ser apenas um item de custo e passou a ter papel estratégico na competitividade da indústria. Ao mesmo tempo, a falta de infraestrutura energética pode frear projetos de eletrificação. Os dois temas estiveram no centro do painel “A indústria eletroeletrônica diante de uma nova agenda de competitividade”, promovido pela FIEE – Feira Internacional da Indústria Elétrica, Eletrônica, Energia, Automação e Conectividade.
Com mediação de Silla Motta, estrategista com foco em segurança energética, especialista no setor elétrico e curadora da 2ª edição do Congresso FIEE, o painel reuniu Patrícia Cavalcanti, vice-presidente de Digital Energy & Power Products para a América do Sul na Schneider Electric; Marcelo Machado, diretor da área de Geração, Transmissão e Distribuição (GTD) da Abinee; Fernando Oliveira Silveira, diretor comercial da GreenYellow; e Wilson Morais, diretor de produtos e soluções de eletromobilidade e infraestrutura da ABB Eletrificação.
Para Silla, a transformação da indústria passa pela capacidade de conectar inovação tecnológica, infraestrutura e estratégia de negócios. "A energia ocupa uma posição central nesse processo, tanto pela sua importância para a competitividade quanto pela necessidade de garantir segurança e previsibilidade às operações. A FIEE tem um papel relevante ao aproximar quem desenvolve soluções de quem precisa aplicá-las, promovendo conexões capazes de gerar investimentos, oportunidades de negócios e desenvolvimento para a indústria brasileira”, afirmou.
Energia e infraestrutura
A gestão energética foi um dos eixos do debate. Fernando Oliveira Silveira destacou que o uso de dados e o planejamento dos investimentos em eficiência energética podem reduzir custos e aumentar a previsibilidade das operações. “A energia hoje é um diferencial competitivo, não é só mais um custo”, explicou.
Os indicadores ajudam a dimensionar a importância da energia para a indústria. Segundo o Balanço Energético Nacional (BEN) 2026, da EPE, a indústria respondeu por 36,1% do consumo final de energia elétrica do Brasil em 2025. Uma sondagem da CNI divulgada em agosto de 2026, com cerca de 1,5 mil empresas, mostrou que 67% das indústrias sentiram o aumento do custo da energia elétrica nos custos de produção. Mesmo assim, investimentos em autogeração e em eficiência energética no processo fabril foram citados por apenas 13% das empresas.
Eletrificação e mobilidade
Segundo a ABVE, o Brasil encerrou 2025 com 223.912 veículos eletrificados vendidos, alta de 26% sobre 2024. Em maio de 2026, o país contava com 25.429 pontos públicos e semipúblicos de recarga.
Wilson Morais citou como exemplo a substituição de frotas urbanas por veículos elétricos, que depende da disponibilidade de energia nos locais de operação. “Não adianta lançar um projeto de transformar a frota da cidade inteira em ônibus elétricos se não tem infraestrutura suficiente para levar energia a todas as garagens”, exemplificou.
O caso de São Paulo mostra o tamanho do desafio. Segundo a Prefeitura de São Paulo, a capital atingiu 2.009 veículos de emissão zero em 30 de setembro de 2026, sendo 1.821 ônibus a bateria e 188 trólebus, mas o total ainda fica abaixo da meta de 2,6 mil veículos elétricos prevista para dezembro de 2024. Os elétricos representam 14,7% dos 13.690 veículos da frota municipal contratada. A própria Prefeitura admitiu uma redução temporária no ritmo da eletrificação, atribuída a problemas na infraestrutura de recarga e na capacidade da rede de distribuição de energia, sobretudo nas garagens.
Sobre a FIEE
A FIEE – Feira Internacional da Indústria Elétrica, Eletrônica, Energia, Automação e Conectividade acontecerá de 14 a 17 de setembro de 2027, no São Paulo Expo. A feira reunirá empresas, especialistas e profissionais dos setores elétrico e eletrônico para apresentar tecnologias e soluções voltadas à produtividade, eficiência energética e modernização industrial. O evento também sediará a 2ª edição do Congresso FIEE, com uma programação dedicada às tendências e aos desafios da indústria.
Jornal Metropolitano SP