A política regional em Sorocaba foi sacudida recentemente após a publicação de um vídeo (https://www.instagram.com/p/De9MQ04xc-V/) que extrapolou o debate partidário tradicional e atingiu diretamente o comércio de bairro. Na gravação compartilhada nas redes sociais, a vereadora Tatiane Costa (PL), alinhada ao campo bolsonarista, fez uma orientação direta aos eleitores de direita: indagar aos donos de estabelecimentos em quem votaram e deixar de comprar naqueles que apoiarem partidos ou pautas de esquerda — citando de forma expressa os "petistas".
Diante da repercussão imediata e das críticas recebidas, a parlamentar divulgou um segundo pronunciamento em tom desafiador. Afirmou que setores da oposição buscavam "silenciá-la" e sugeriu que o lado adversário adotasse idêntica postura para "ver quem dura mais". O caso ganhou desdobramentos formais no Legislativo: a vereadora Iara Bernardi (PT) protocolou uma representação na Comissão de Ética da Câmara Municipal, apontando a prática de boicote político.
Contudo, a gravidade do episódio exige que a cobrança não fique restrita à oposição partidária. É imperativo que os demais vereadores que compõem o plenário de Sorocaba rompam o silêncio e venham a público expressar seus posicionamentos. Cabe a cada um dos representantes eleitos recordar e honrar a essência de suas atribuições institucionais dentro do Parlamento — uma estrutura mantida integralmente pelo suor e pelos impostos pagos diariamente pelo contribuinte sorocabano.
A declaração reacendeu o debate sobre o papel institucional de um parlamentar municipal e os efeitos psicossociais e econômicos da polarização ideológica extrema no dia a dia da população.
Quais são as reais atribuições de um vereador?
O mandato na Câmara Municipal é delimitado de forma estrita pela Constituição Federal e pelas Leis Orgânicas municipais. A atividade de um parlamentar fundamenta-se em quatro pilares institucionais, custeados pelos cidadãos e que devem se distanciar de disputas estritamente ideológicas ou de estímulos à segregação comercial:
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Legislar: Apresentar, debater, propor emendas e aprovar projetos de lei de interesse estritamente local, como transporte público, saneamento básico, plano diretor e zoneamento urbano, além de melhorias para a saúde e a educação do município.
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Fiscalizar: Acompanhar de perto a gestão do Poder Executivo, controlando gastos, contratos e decisões da Prefeitura. Cabe ao vereador assegurar que o dinheiro arrecadado com tributos pagos pela população seja aplicado de maneira legal, ética e transparente.
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Julgar: Avaliar eventuais infrações político-administrativas cometidas pelo prefeito, vice-prefeito ou integrantes do próprio Parlamento, inclusive votando pela cassação de mandatos em processos abertos em comissões de ética.
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Representar: Servir de ponte entre as demandas da comunidade e os órgãos públicos, acolhendo queixas e problemas dos bairros para convertê-los em indicações de melhorias e projetos de lei.
Os reflexos da radicalização no cotidiano da cidade
Levar disputas partidárias para as relações cotidianas de consumo — desde a compra de pão na padaria até o almoço em um restaurante ou o reparo de um veículo em uma oficina mecânica — impõe danos severos à estrutura social e à economia do município:
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Sufocamento de pequenos negócios: Pequenos comerciantes locais dependem da clientela de toda a comunidade para sobreviver. O boicote motivado por posições políticas pode asfixiar financeiramente famílias inteiras, afetar diretamente a geração de empregos e enfraquecer a economia de bairros inteiros.
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Aumento da hostilidade e vigilância social: Promover esse tipo de atitude cria um clima generalizado de desconfiança e intolerância, onde o vizinho ou o comerciante local passa a ser visto como um "inimigo" a ser investigado, em vez de um concidadão.
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Afastamento das pautas locais urgentes: Quando figuras públicas do Legislativo priorizam o tensionamento ideológico nacionalizado, a atenção política é desviada de problemas locais crônicos e que afetam a todos de forma igual, independentemente da vertente partidária.
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Precarização do debate público: A incitação à segregação dificulta o diálogo racional e o consenso coletivo, que são as bases indispensáveis para a formulação e aprovação de políticas públicas eficazes e benéficas para toda a municipalidade.
Por uma política voltada às reais necessidades da população
Diante de um cenário em que as paixões partidárias ameaçam fragmentar o tecido social e a economia local, torna-se urgente resgatar o verdadeiro propósito da atividade pública. A política municipal mais necessária e eficaz não é aquela que divide a população entre "nós contra eles", mas a que se propõe a resolver os problemas concretos que atingem a todos, independentemente da vertente ideológica de cada cidadão.
Falta de vagas em creches, filas na saúde, asfalto precário, transporte coletivo ineficiente e segurança nos bairros são desafios universais que não escolhem partido político. Quando mandatários concentram suas energias na promoção de boicotes e no acirramento de discursos partidários, perde-se o foco nas soluções práticas que melhoram a qualidade de vida coletiva.
O fortalecimento da cidadania e o desenvolvimento de uma cidade exigem maturidade institucional. É fundamental que a sociedade cobre de todos os seus representantes eleitos uma postura firme e voltada ao bem comum, onde o debate de ideias sirva para construir pontes e aperfeiçoar serviços públicos, e não para criar barreiras invisíveis no comércio da esquina ou na convivência social do dia a dia.
Jornal Metropolitano SP
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