A região do ABCD paulista passa a contar com um instrumento inédito de financiamento e gestão da atenção primária à saúde. O Ministério da Saúde, sob a gestão do ministro Alexandre Padilha, implementou o Brasil 360, novo modelo de cofinanciamento federal que substitui a lógica tradicional de repasses fixos por um sistema que vincula recursos ao desempenho real das equipes de saúde no território.
O ABCD reúne uma das maiores concentrações urbanas do país, com forte presença de trabalhadores da indústria automobilística e metalúrgica, além de um contingente expressivo de população que se desloca diariamente entre os municípios da região para trabalho e estudo. Esse padrão de mobilidade sempre representou um desafio para o acompanhamento contínuo da saúde da população, já que muitos moradores utilizam serviços de saúde fora do município onde residem. O Brasil 360 responde diretamente a essa realidade ao estruturar o financiamento em três componentes: um valor fixo por equipe, um componente vinculado ao cadastro e ao acompanhamento da população na unidade de referência, e um terceiro voltado à qualidade do acompanhamento territorial.
Na prática, isso significa que as unidades básicas de saúde da região passam a ser remuneradas de forma mais justa e mais próxima da realidade de cada bairro, reconhecendo o esforço das equipes em manter o vínculo com moradores que, muitas vezes, passam boa parte do dia fora de casa. Agentes comunitários de saúde, enfermeiros, médicos, técnicos e equipes de saúde bucal passam a compartilhar a responsabilidade pelos resultados, algo que representa uma mudança importante em relação ao modelo anterior, no qual a cobrança recaía principalmente sobre a gestão municipal.
A experiência de outros municípios que já adotaram a lógica dos três componentes mostra resultados concretos: reuniões periódicas entre gestão e equipes para discutir os indicadores, revisão de agendas para priorizar pacientes com maior necessidade de acompanhamento e uso sistemático dos dados como ferramenta de planejamento, não apenas como exigência burocrática. Para o ABCD, com sua rede robusta de unidades de saúde e histórico de organização social forte, a expectativa é que essa cultura de gestão baseada em evidências se consolide rapidamente.
O Brasil 360 também amplia a transparência sobre o desempenho da atenção primária. Moradores da região poderão acompanhar, por meio do painel público disponibilizado pelo Ministério da Saúde, como os indicadores de suas cidades evoluem ao longo do tempo. Essa visibilidade tende a fortalecer a cobrança social por qualidade e a valorizar o trabalho das equipes que já vinham se dedicando ao cuidado territorial, mesmo antes da mudança no modelo de financiamento.
Para uma região que tem uma alta densidade populacional o Brasil 360 representa a chance de transformar um sistema historicamente reconhecido pela sua capacidade de mobilização coletiva em um modelo de referência também na gestão da saúde pública, com dados guiando decisões e profissionais de todas as categorias reconhecidos pelo resultado do seu trabalho.
Referências
BRASIL. Ministério da Saúde. SUS Brasil 360. Brasília, DF: Ministério da Saúde, 2025. Disponível em: https://sus360.saude.gov.br/ .
Humberto Tobé é Pós-Graduado em Gestão da Saúde Pública, trabalha na interlocução com prefeitos, vereadores, gestores municipais e representantes da área da saúde dos municípios paulistas.
Isabella Werneck Zanon é graduanda em Políticas Públicas e Mestranda em Relações Internacionais pela Universidade Federal do ABC (UFABC).
Jornal Metropolitano SP